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terça-feira, 29 de abril de 2014

BRASIL - NORDESTE


Muro Alto  -  Recife  -  Olinda

23 Abril - 4 Maio 2006


Nordeste é muito mais do que uma fileira de belas praias que atraem a grande massa turística.
A sua alma está nas cidades e na sua história, nas belas igrejas barrocas que surgem no meio da arquitectura moderna, nos pequenos povoados com sobrados, solares, azulejos e chafarizes.
A alma do Nordeste está, também, na música, no batuque das danças e na mesa. E no candomblé.

Precisávamos de descansar num sítio caminho.   Escolhemos Muro Alto, por causa de um resort que nos pareceu muito bomNannai.

Passámos três dias sem fazer nada, 
passeando, comendo, lendo. Todas as noites, as chuvadas tropicais e os ventos ciclónicos. De dia, o sol tímido.


No dia 25 de Abril, antes do almoço, ainda me lembrei do "Dia da Liberdade". "Como é, Alfredo?" É o primeiro ano, desde há 32, que não acordamos com a "Grândola, vila morena"! E lá cantámos, os dois: o Alf dentro da piscina (privada) 

e eu à varanda do bangalô.

Mas é quietude a mais, com duas belas cidades aqui ao pé.
Na recepção escolhemos o meio para as visitar: o táxi, com ar condicionado, claro.
O Júnior esperáva-nos, na manhã seguinte, pouco antes das dez horas da manhã. Grande conversador, como bom brasileiro, fomos sabendo que já trabalhou no talho de um supermercado. Não falta trabalho. E quem não tem... pega na fruta, que abunda por todo o lado, e vai vender à beira da estrada. 
Até parece o Paraíso.

Mas não é. Nesta região, quem não trabalha para o turismo, vive da cana-de-açúcar, introduzida no Brasil em época imprecisa. Mas na segunda metade do séc.XVI já a indústria se encontrava estabelecida no Nordeste, espalhando-se por todo o litoral nordestino, com bons portos em Recife e Salvador, com a proximidade relativa com a Europa.
São extensos quilómetros quadrados de cana que pertencem apenas a dois donos. Que pagam miséria, claro. Os aglomerados de casas parecem favelas. Ensino, não há. Nem interessa promover: se estuda, abala e deixa de haver mão-de-obra. Existe um plano nacional de vacinas, gratuito e obrigatório: sem saúde não há trabalhador. Nesta altura há um plano de vacinação contra a gripe, para os mais velhos.
Jaboatão é a terceira cidade do Brasil a pagar impostos, apenas com 80.000 habitantes. Por causa do turismo e da cana. No entanto, o ordenado mínimo é de 350 reais e as habitações são favelóides. O Vereador tem um vencimento de 80.000 reais (mais do que o Prefeito) e, diz o povo, não faz nada pela população. (sic)
Já no Recife, passámos por uma "Farmácia dos Pobres", de genéricos e afins. Mas o Júnior diz que é só de nome. Os medicamentos são ao mesmo preço. O Estado comparticipa em alguns medicamentos genéricos. Os outros não são comparticipados.

Recife começou a expandir-se a partir de um ancoradouro natural em 1537. 

Os engenhos de açúcar fizeram crescer os arredores. Em 1637, os holandeses tomaram a cidade, que teve a sorte de ter um governador como o conde Maurício de Nassau que promoveu uma cultura de tolerância a nível religioso e promoveu a vinda de artistas e cientistas. Em 1645, os portugueses voltaram.
Parámos na Av. Beira-Mar, com uma extensa praia debruada por recifes. 

Para lá deles, não se aconselha passar porque a costa está infestada por tubarões. 

Parece que existia um berçário de tubarões onde foi construído o Nannai resort e que terá sido destruído com as explosões para desbravamento da zona, deixando os animais desorientados por toda a costa. "Então, e os ecologistas?". Perguntei. Os interesses económicos e os subornos passam por cima de tudo.
Visitámos a Casa da Cultura, um edifício que foi Presídio e está adaptado. 

Tem algumas figuras de arte sacra e pouco mais. 


O resto são lojinhas de artesanato, uma por cada cela. 

É um bom aproveitamento para um edifício que, de outra maneira, estaria degradado. Como degradadas estão muitas casas, no Recife antigo, 

o que é uma pena porque esta arquitectura colonial é linda.

A cidade moderna tem grandes arranha-céus e cerca de dois milhões e meio de habitantes.

Na parte do porto desactivado, existe um parque de esculturas de um conhecido escultor pernambucano, Francisco Brennand, onde se destaca o obelisco Torre de Cristal, com 32 metros, dedicado aos 500 anos da descoberta do Brasil.

Teatro Mamulengo 

é o teatro popular nordestino com marionetas que cantam, dançam e conversam com o público e distribuem pauladas entre si. O mamulengo é o equivalente ao nosso fantoche.
Subimos ao alto de um grande edifício colonial transformado em shopping

para ter uma melhor panorâmica da cidade cuja característica é a existência de numerosas pontes que unem as diversas ilhas que a compõem.
Foi uma visita muito superficial devido ao pouco tempo disponível.

Olinda fica logo ali.
Não se chega a perceber onde acaba Recife e começa Olinda.

Quando entrámos no restaurante onde o taxista nos deixou, conhecemos o Buiú. Não lhe demos grande importância. Era mais um puto a meter-se com o turista: "Se precisá de um guia, viu?... estou aqui!". Camisola amarela, boné cor-de-laranja, magrinho-magrinho, bermudas e óculos de míope.
O Júnior não aceitou almoçar connosco porque tinha que "tratar do carro". Comemos bem: entrada de caranguejos recheados, picanha e uma tarte de limão. Uma caipirinha partilhada, um chôpinho e uma água mineral. Com dois cafés a arrematar, pagámos 62 reais no "Estrela do Mar". Foi rápido, como pretendíamos e, à saída, o Buiú ainda lá estava.
Aguardámos à beira-mar a ver os surfistas à espera da onda que tardava em chegar.
Foi o puto magrinho que nos avisou da chegada do nosso motorista. Também foi ele que nos explicou pertencer a um grupo de guias-mirins credenciados (puxou do cartão) que mostram Olinda. A organização a que pertence pretende tirar os meninos da rua e ajudar as mães, principalmente as solteiras. Aceitámos que nos guiasse e entrou no nosso carro, ao meu lado, não parando de falar. Fala-fala-fala. Sempre foi assim. Conta que, há alguns anos atrás (é guia desde os 7 anos...), se o interrompiam na explicação, tinha que começar o discurso todo desde o princípio, para não perder o fio à meada. Com 14 anos, tem um curso de turismo a nível secundário 
e diz que ficou em 2º lugar num grupo onde só eram adultos.
Olinda é Património Mundial da Humanidade da UNESCO desde 1982. O seu nome, diz-se, foi dado pelo seu primeiro donatário, Duarte Coelho, administrador da capitania de Pernambuco, que teria exclamado, ao chegar aqui: "Oh, linda situação para construir uma vila!" (1535).

Começámos no Convento de São Francisco, construído em 1585.

Cá fora, Puiú começou por nos chamar a atenção para o acabamento do telhado com três beirais: a eira, a beira e a tribeira. É uma casa rica. 

A dos pobres "não tem eira nem beira", daí a expressão que designa os que nada têm.

No interior, rico em arte sacra. 


Os quadros são pintados sobre tábuas de madeira (não havia telas). As tintas eram feitas de corantes naturais (o vermelho, com sangue de boi misturado com óleo de baleia, para conservação). Os tectos eram pintados com a mesma técnica. Outro dado interessante, é que os quadros não estão assinados. As obras eram oferecidas ao convento e não podiam ser reclamadas pelos familiares do artista quando este morria porque não havia maneira de provar que lhe pertenciam. Mas os pintores arranjavam maneira de personalizar as obras... Como aquela "Última Ceia" em que, ao fundo, se vêem dois empregados a servir (dois "garçons", como disse o Buiú). Noutro local, no tecto de uma capela, os narizes das figuras são todos iguais. E, numa outra "Última Ceia", um cachorro dorme, no primeiro plano.
Os belos claustros têm azulejos valiosos.

Na entrada da Igreja, numa porta, 

está escrito um discurso delicioso que o Buiú sabe de cor: "A Chico da Sé: Quando eu morrer, com certeza vou para o céu. O céu é uma cidade de férias, férias boas, que não acabam mais. Assim que eu chegar, pergunto onde mora a minha gente que foi na frente. E depois quero ir à casa de San Francisco de Assis, para ficar amigo dele. Amigo de verdade, amigo de todos os dias, amigo mesmo, tão amigo, tão íntimo que hei-de lhe chamar Chico. A.M."
Num dos terraços pudemos observar uma das mais lindas paisagens. E algumas das 22 igrejas e 11 capelas existentes em Olinda.

À saída, os dançarinos do frevo, ensaiavam. 

frevo nasce em fins do séc.XIX, provavelmente a partir da polca e dos dobrados militares, caracterizando-se pela inconfundível marcha de ritmo frenético e pela coreografia, um sobe-e-desce constante de pernas e braços 
("Ai, que até fervo!...").
O artesanato foi adquirido na Cooperativa Ecológica. As coisas são muito baratas, não é preciso regatear (pechinchar) e parte da receita é para a organização a que pertencem os guias-mirins. As Marias Bonitas e os Lampiões, são encantadores. 

São personagens do Nordeste: os cangaceiros, eram bandoleiros independentes que durante décadas (dos primeiros anos do séc.XX até 1940) espalharam o terror pelos sertões nordestinos, invadindo e saqueando casas e cidades. A sua vida nómada e de desafio à autoridade, conferia-lhes uma aura romântica, criando os mitos de Lampião e Maria Bonita.
Outra figura da história da região é o Padre Cícero Romão Batista, conhecido entre nós através de uma das novelas onde Lima Duarte brilha com o seu talento e que é bispo no xadrez 

que comprámos onde o rei e a rainha são Lampião e Maria Bonita.
Impossível é visitar todas as igrejas de Olinda. Tivemos que seguir a orientação do nosso guia e entrámos no Mosteiro de São Bento 
com pesadas portas de jacarandá. Deslumbrou-nos um altar em talha dourada (com 12 toneladas de peso), riquíssimo, um exemplar magnífico do barroco português (rococó - 1783/1786) que esteve em Nova Iorque, na inauguração do Museu Guggenheim, em 2001.
Regressámos a Muro Alto satisfeitos pelo passeio, mas com a sensação de que temos que voltar.


* * *







11 comentários:

São Rosas disse...

Maravilha!
Aquela porta gravada com a frase, então...

Maria Julia disse...



Brasil é Brasil, cheio de encantos mil!!! Gostava de ir, para lá viver. Preferia o Rio de Janeiro, claro(para viver). O Nordeste tem praias e locais muito lindos, como estes que nos mostraram, mas demasiado ventoso, 'né? Eu via nas telenovelas lá passadas, como as "desgraçadas" das personagens ficavam "descabeladas" :) Gostei de ver Olinda, Património Mundial da Unesco e de saber a origem do seu nome - que graça!!! Então voltem, se tiveram a sensação de de lá voltar...quem dera a mim!!!

Beijinhos, Alf e Daisy.

Heleny Garcia Marques disse...

Alfredo, fizeste-me recordar a viagem que fiz também por estes lados, amei o nordeste.

Francisco José Carvalho Domingues disse...

Conheço. A Praia de Muro Alto é uma piscina com água a 38ºC (?), 800 m x 80 m de dimensões, e camarões fritos na areia a saltar-nos para as mãos (camarões amestrados ...) O resto (calor) alivia-se com umas Antarticas geladinhas .... Grande experiência !

cota13 disse...

Assunto.
Tonito.

Suzana Maria Redondo disse...

Já tenho o bilhete na minha mão para o dia 12 de Setembro.E por la passarei..

DOM RAFAEL O CASTELÃO disse...

Gostei, amei, sonhei...acabei!
Mas ir ao Brasil, nem pensar
Para ver Olinda não é preciso, vejo-a todos os dias!

JLC disse...

Muito bem Alfredo... belíssima reportagem....já agora o primeiro capitão donatário Duarte Coelho, será alguma coisa à Joana Coelho?
JLC

lili disse...

Muito obrigada por me ajudarem a lembrar tempos passados:)).
Adoro o Nordeste Brasileiro e a Daisy descreve tudo tão bem...

Muitos beijinhos

Lili

olinda Rafael disse...

Pronto andei por lá e até gostei...
Mas fico-me com as imagens e descrições o que me dá grande prazer.
Beijinhos

celeste maria disse...

Olhem, meus amigos, gostei mesmo de tudo!
Até aquela de estar três dias sem fazer nada.
Ir ao Brasil é para mim um sonho!
Afinal, já fui!!!
Grata pela boleia.