Agosto 1998
É a ilha mais isolada do mundo, no meio do Pacífico Sul, na Polinésia Oriental. Os seus habitantes chamam-lhe o Umbigo do Mundo. Foi descoberta em 1772 pelo holandês Jacob Roggeveen, no Domingo de Páscoa.
A 4000 quilómetros da costa do Chile, é uma região administrativa deste país e foi só no século XX que conseguiram o respeito pela sua língua (rapa nui) e a promessa de que a terra não pode sair da posse de pascuenses (se um pascuense casar com um estrangeiro, não poderá possuir terra ou edifício na ilha).
A ilha tem a forma de um triângulo com um vulcão em cada vértice.
Foi o Leonardo Pakarati (Leo) que nos foi buscar ao aeroporto. Um anarquista puro, que retratou, à sua maneira, a cultura do seu povo.
“Na vida, em questão de Amor, o que conta é a intensidade”.
Fomos muito bem recebidos por um grupo de lindas bailarinas
Ficámos no Hotel “O’tai”, em Hanga Roa, a capital. Jantámos num ambiente muito íntimo, no “Orongo” onde comemos um mata huira (pescado polinésio) confeccionado por uma personagem sui generis, o Raul, dizendo que nos serviria tudo o que quiséssemos, mas nos deu o que ele quis numa refeição espectacular.
Nos dois dias seguintes, orientados pelo Leo, tentámos ver tudo o que de mais importante havia na ilha e conhecer a versão do nosso guia sobre os mistérios da Ilha da Páscoa.
Nós, os quatro turistas (Alfredo, Daisy, Hilde e Isabel), com o guia rapa nui, iniciámos a descoberta da ilha pelo Complexo Ahu Akivi, os 7 moai. Os 7 moai, seriam os 7 emissários enviados pelo rei Hotu Matua para explorar a Ilha Rapa Nui, quando a ilha em que habitavam, Hiva, sofreu um cataclismo. E, por isso, são os únicos que estão a olhar para o mar, à espera do Rei.
Outra explicação para os 7 moai: seriam os 7 irmãos do rei Hotu Matua que colonizaram outras 7 ilhas do Pacífico.
Ana Tepahu é o nome desta gruta (existem muitas na ilha), que tem mana bai (poder da água). Servia de abrigo nas guerras e de local de cultivo porque tem humidade e água. Esta tem saída a 150 metros.
Há pedras com história por todo o lado.
Tangata Manu, o Homem Pássaro.
Make-Make, a Cara de Deus.
Espalhados pela ilha, estão cerca de 1000 moai, mas só 35 estão recuperados.
A ilha é escarpada, o que dificulta o acesso por barcos de grande porte.
Os arqueólogos põem a hipótese do povo ter a mesma origem dos incas de Machú Pichú, por construções encontradas se assemelharem às do lugar mítico peruano.
O Complexo Tahai, é uma vasta área que desce até ao mar, composto por um moai isolado com olhos (de obsidiana) e pukao (chapéu em pedra vulcânica avermelhada, que representaria o cabelo do rei Hotu Matua, que seria ruivo); o Ahu Akapu, com 5 moai mal conservados; outros moai espalhados e construções habitacionais (Hare Paenga).
A Hare Paenga (casa em forma de bote) servia apenas de abrigo e dormida, já que todas as tarefas domésticas se realizavam no exterior. As entradas eram pequenas para obrigar a entrar de gatas, mostrando a indefesa do visitante perante o dono da casa.
- Escultura de Exposição Anual feita pelos nativos
Subimos ao Rano Kau, situado no extremo sudoeste da ilha, em Orongo, a Cidade Sagrada.
Era junto ao vulcão, na Cidade Sagrada, que se realizava o culto do Homem Pássaro (Tangata Manu) entre 1410 e 1876.
As cerimónias aconteciam na Primavera, quando as aves migratórias vinham nidificar. Cada grupo tribal escolhia o seu guerreiro. Saltavam da escarpa e nadavam até ao Motu-nui, onde as aves tinham os ninhos. Depois, teriam que subir a escarpa íngreme, sem partir o ovo da manu tara (sterna fuscata) e o primeiro dava à sua tribo o poder absoluto até à Primavera seguinte.
- Hare Paenga de Orongo
- Motu Nui, Motu Iti, Motu Kau Kau
Numa espécie de degraus escavados na rocha, sentavam-se os juízes da competição.
As Hare Paenga de Orongo só eram ocupadas durante as festas da competição.
Pela beira-mar, fomos encontrando mais restos de moai.
O percurso até ao berço dos moai (Arao a te moai), foi feito caminhando ao lado do
Leo, ouvindo com respeito as suas histórias da cultura dos antepassados.
Pela encosta do vulcão Rano Raraku, fomos olhando e tocando alguns dos 394 moai em diversas fases de construção, como se os escultores tivessem apenas interrompido momentaneamente o seu trabalho.
Na encosta, encontram-se moai que podem ser datados de épocas diferentes.
Segundo os arqueólogos, estes seriam de épocas mais recentes porque as faces são mais estilizadas e eram de maiores proporções.
Os moai poderiam retratar os habitantes da ilha, os mais sábios (os que tinham mana) depois de morrerem.
Encontrámos um guia com um perfil igual a este.
Chegámos ao cimo, à cratera do Rano Raraku.
Diz a história que os troncos das árvores eram o veículo para transporte dos moai até à beira-mar. Os grandes blocos de pedra esculpida, rolavam por cima dos troncos. E a ilha foi ficando sem vegetação e caminhou para o fim de uma civilização rica de mitos.
O Ahu Tongariki, composto por 15 moai é o complexo mais recentemente recuperado.
De costas para o mar, olhando enigmaticamente para o interior da ilha (para proteger?). Estes seriam dos mais antigos moai, com feições mais grosseiras e de menor estatura.
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Neste, podem identificar-se mãos e pés, o pukao e as escavações oculares onde terão estado pedras de obsidiana.
Anakena (ana = cova; kena = pássaro).
É também o único sítio onde encontrámos palmeiras.
É onde se encontra o Ahu Nau Nau.
O dia estava nublado, frio e sem brilho, mas o pássaro pousou e voou.
Não são pacíficas as relações entre os rapa nui e o Chile.
Mas dentro da Igreja, há uma boa convivência entre o Cristão e o Culto Rapa Nui: o Cristo é um Homem Pássaro, na Cruz.
Ao entardecer do último dia, jantámos no “La caverne du pécheur”, em frente ao único porto de abrigo de Rapa Nui. Comida pretensamente francesa que não chegava aos calcanhares da do Raul.
- Representação do Umbigo do Mundo
Onze anos depois desta visita a mais um local que fazia parte dos nossos Sonhos e depois de já ter visitado Machú Pichú, tivemos oportunidade de confirmar a semelhança de algumas construções com o muro encontrado na Ilha da Páscoa, bem como esculturas semelhantes a moai no museu da Ilha do Sol em pleno Lago Titicaca, em 2005.
Também a canção que o Raul nos cantou no seu restaurante e trauteada pelo Alfredo que a recordava do folclore de Timor, foi ouvida numa loja de artesanato em Roturua, na Nova Zelândia em 2004.
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